O crescimento da frota de veículos elétricos no Brasil tem transformado a experiência de motoristas e passageiros. Entretanto, além das vantagens relacionadas à economia e à sustentabilidade, uma característica desses automóveis tem chamado a atenção: o aumento da sensação de enjoo durante as viagens.
De acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), aproximadamente 335 mil veículos elétricos circulam pelo país. Desse total, quase metade foi emplacada apenas nos primeiros nove meses deste ano, demonstrando o avanço da tecnologia no mercado brasileiro.
Apesar da popularização, algumas pessoas relatam dificuldades para se adaptar ao funcionamento desses automóveis, principalmente quando ocupam os bancos traseiros.
É o caso da chef de cozinha cearense Louise Torres, que passou a perceber um desconforto mais intenso durante viagens realizadas por aplicativos de transporte. Segundo ela, o mal-estar costuma ser tão forte que, ao chegar ao destino, precisa de alguns minutos para se recuperar.
A situação ganhou repercussão depois que Louise publicou um vídeo nas redes sociais relatando sua experiência. A gravação ultrapassou 630 mil visualizações e recebeu centenas de comentários de pessoas que afirmaram enfrentar sintomas semelhantes.
A chef explicou que começou a perceber o problema com maior frequência depois da maternidade, quando passou a viajar mais vezes no banco traseiro dos veículos. Embora já apresentasse desconforto em automóveis convencionais, os sintomas se tornaram mais intensos nos modelos elétricos.
Inicialmente, Louise acreditava que a sensação fosse algo particular. Entretanto, após compartilhar o relato e receber diversas mensagens de identificação, percebeu que o problema também atingia outros passageiros.
Entenda o que é a cinetose
Especialistas explicam que o desconforto relatado por passageiros pode estar relacionado à cinetose, condição popularmente conhecida como enjoo de movimento.
Segundo Cristiana Pereira, coordenadora do Ambulatório de Vertigem e Desequilíbrio do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a cinetose ocorre quando o cérebro recebe informações sensoriais conflitantes sobre o movimento do corpo.
Esses sinais são enviados principalmente pela visão, pelo labirinto, localizado no ouvido interno, e pelos sistemas responsáveis pela percepção corporal.
Quando essas informações não correspondem entre si, podem surgir sintomas como náuseas, tontura, suor frio e sensação de desequilíbrio.
A condição não acontece exclusivamente em carros elétricos. Ela também pode surgir durante viagens de ônibus, aviões, barcos e outros meios de transporte.
De acordo com a neurologista, o problema é relativamente comum e costuma ser mais frequente durante a infância e entre pessoas que apresentam histórico de enxaqueca.
A enfermeira Bianca Gomes, de 28 anos, moradora de João Pessoa, na Paraíba, convive com a cinetose desde criança. Diagnosticada com a condição e também com enxaqueca, ela relata episódios de náusea, tontura e suor frio durante deslocamentos.
Bianca afirma que os sintomas aparecem principalmente quando não está dirigindo ou sentada ao lado do motorista. Em veículos com as janelas fechadas, o desconforto costuma ser ainda maior.
Embora apresente sintomas em diferentes automóveis, a enfermeira percebe que a intensidade aumenta quando utiliza carros elétricos, algo que acontece aproximadamente uma ou duas vezes por semana.
Por que os carros elétricos podem provocar mais enjoo?
As características de funcionamento dos veículos elétricos ajudam a explicar por que determinados passageiros apresentam sintomas mais intensos.
O pesquisador Jelte E. Bos, professor da Vrije Universiteit, em Amsterdã, na Holanda, destaca que a tecnologia desses automóveis modifica a maneira como o corpo percebe a aceleração, a desaceleração e outros movimentos durante o trajeto.
Uma das principais diferenças está na resposta do motor. Enquanto os veículos movidos a combustíveis tradicionais apresentam um funcionamento mecânico com características próprias de aceleração, os elétricos conseguem entregar torque de maneira praticamente imediata.
Isso significa que, ao pressionar o acelerador, o motorista pode provocar uma resposta rápida do veículo, mesmo em velocidades reduzidas.
Outro fator importante é a ausência das trocas de marcha típicas de muitos automóveis convencionais. Nos modelos elétricos, a aceleração geralmente acontece de forma contínua, alterando as sensações às quais os passageiros estão habituados.
O silêncio também influencia essa percepção.
Nos carros a combustão, o som do motor funciona como uma espécie de aviso para o cérebro de que o automóvel está prestes a acelerar. Já nos elétricos, a ausência desse ruído pode dificultar a antecipação dos movimentos.
Segundo Bos, o organismo humano ainda passa por um processo de adaptação a essas diferenças, especialmente porque a presença dos veículos elétricos no cotidiano é relativamente recente.
Frenagem regenerativa também influencia o desconforto
Outra particularidade dos carros elétricos é o sistema de frenagem regenerativa, tecnologia que permite recuperar parte da energia durante a desaceleração.
Nesse processo, o motor elétrico atua para reduzir a velocidade do veículo, convertendo parte da energia do movimento em eletricidade que pode ser armazenada na bateria.
Dependendo da configuração do automóvel, basta retirar o pé do acelerador para que a velocidade diminua de maneira perceptível, sem a necessidade de acionar imediatamente o pedal do freio.
Essa desaceleração pode provocar movimentos que intensificam a sensação de inércia entre os ocupantes, especialmente aqueles que já apresentam predisposição à cinetose.
A combinação entre aceleração rápida, funcionamento silencioso e frenagens diferentes das convencionais pode contribuir para o surgimento ou agravamento dos sintomas.
Forma de dirigir pode fazer diferença
Apesar das características dos automóveis, especialistas ressaltam que o comportamento do motorista também exerce influência sobre o conforto dos passageiros.
Acelerações bruscas, mudanças constantes de velocidade e frenagens intensas podem aumentar o desconforto, independentemente do tipo de veículo utilizado.
O motorista de aplicativo Luiz Fernando, que trabalha no setor há quase dez anos, passou a utilizar um carro elétrico depois que seu automóvel a combustão apresentou problemas mecânicos.
Inicialmente, ele decidiu alugar um modelo elétrico após avaliar os possíveis benefícios relacionados ao consumo de energia e aos custos de manutenção. A experiência foi positiva e o profissional passou a considerar a compra definitiva de um veículo desse tipo.
Luiz afirma que conseguiu se adaptar rapidamente à condução e destaca a facilidade de controlar a velocidade utilizando o acelerador e o sistema de frenagem regenerativa.
Com aproximadamente 16 mil corridas realizadas ao longo de sua trajetória, ele relata que costuma receber avaliações positivas dos passageiros e que não recebeu reclamações relacionadas a enjoos provocados pelo automóvel elétrico.
Para o pesquisador Jelte Bos, esse aspecto é importante. Motoristas que mantêm uma condução suave, evitando acelerações e desacelerações desnecessárias, podem proporcionar viagens mais confortáveis.
Além disso, alguns veículos permitem ajustar a intensidade da frenagem regenerativa, o que também pode contribuir para reduzir movimentos inesperados.
Adaptação pode ajudar a diminuir os sintomas
A neurologista Cristiana Pereira explica que o organismo possui capacidade de adaptação aos estímulos provocados pelo movimento.
Segundo a especialista, a exposição gradual e repetida a determinadas situações pode ajudar o cérebro a interpretar melhor os sinais recebidos durante os deslocamentos, reduzindo a intensidade dos sintomas em algumas pessoas.
Ela lembra que indivíduos acostumados a viajar frequentemente em embarcações, por exemplo, podem desenvolver maior tolerância ao balanço.
No caso dos veículos elétricos, a tendência é que parte dos passageiros também consiga se habituar às diferenças de funcionamento com o passar do tempo.
Louise Torres afirma que já percebeu uma redução do desconforto em uma de suas viagens mais recentes. Para amenizar os sintomas, evita utilizar o celular, procura manter o olhar direcionado para a frente e prefere posições que facilitem a visualização do trajeto.
Bianca Gomes também adotou estratégias para enfrentar a cinetose. A enfermeira costuma escolher lugares próximos às janelas e prefere mantê-las abertas sempre que possível. Em viagens mais longas, relata utilizar medicamentos contra enjoo.
Entretanto, especialistas alertam que o uso de medicamentos deve ocorrer mediante orientação profissional, principalmente quando os sintomas são frequentes ou intensos.
Tecnologia pode tornar as viagens mais confortáveis
Além da adaptação dos passageiros e da mudança de hábitos dos motoristas, pesquisadores investigam soluções tecnológicas capazes de reduzir o enjoo em veículos elétricos e autônomos.
Entre as possibilidades estudadas estão sistemas que emitem sinais sonoros antes de determinados movimentos, vibrações nos bancos e recursos visuais que ajudam os ocupantes a antecipar acelerações, curvas e frenagens.
Essas tecnologias buscam diminuir o conflito entre as informações recebidas pelo cérebro, uma das principais causas da cinetose.
Para os especialistas, a expansão dos veículos elétricos deve estimular novas pesquisas sobre conforto e bem-estar dos passageiros.
Enquanto essas soluções avançam, medidas simples, como evitar olhar para telas durante o trajeto, observar a direção do movimento, manter uma ventilação adequada e priorizar uma condução suave, podem ajudar a reduzir o desconforto.
Embora os carros elétricos apresentem características capazes de intensificar os sintomas em pessoas suscetíveis, isso não significa que todos os passageiros terão enjoo. A reação depende de fatores individuais, da maneira como o veículo é conduzido e da adaptação de cada organismo.
Fonte: CNN Brasil



