José Aparecido da Silva começou a trabalhar na roça aos 7 anos, passou por duas cirurgias, perdeu 28 quilos e agora troca a rotina como gerente de um posto de combustíveis pelas salas de aula de Medicina
Aos 58 anos, quando muitos já pensam em aposentadoria, José Aparecido da Silva decidiu começar uma nova vida. Após mais de três décadas trabalhando em um posto de combustíveis, ele conquistou uma vaga no curso de Medicina da Faculdade de Medicina de Presidente Prudente (Famepp), da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), e emocionou colegas e familiares durante a recepção aos calouros realizada nesta quarta-feira (5).
Conhecido em Presidente Prudente como Cido do Posto Brasil, ele está prestes a completar 59 anos, em dezembro, e afirma que finalmente começou a realizar um sonho cultivado por décadas. Até aqui, o caminho foi longo. Durante os últimos 32 anos, trabalhou em um posto de combustíveis, onde começou como frentista, passou pelo caixa, tornou-se cotista do negócio e, mais tarde, assumiu a gerência-geral.
Muito antes disso, porém, a rotina era ainda mais pesada. Nascido em Álvares Machado, no oeste paulista, Cido começou a trabalhar aos 7 anos, ajudando os pais nas lavouras de feijão, amendoim e algodão. Por ser pequeno, não conseguia arrastar o saco de estopa usado na colheita manual do algodão e utilizava uma lata para recolher as plumas antes de despejá-las no saco.
Ao longo de 21 anos, trabalhou na zona rural entre Álvares Machado e o distrito de Costa Machado, em Mirante do Paranapanema. Na vida adulta, também foi motorista de caminhão canavieiro. A mudança para Presidente Prudente aconteceu em 1994, três anos depois do casamento com Maria do Socorro. O casal teve dois filhos.
Um deles, Wallas Douglas, mora em Lagos, Portugal, onde trabalha como cozinheiro. A outra filha, Ana Caroline, seguiu justamente o caminho que o pai sonhava trilhar. Formada em Medicina pela própria Unoeste há três anos, ela atualmente atua no Programa Mais Médicos, no município de Capela do Alto (SP), além de fazer plantões em unidades de saúde.
Mudança começou pela saúde
A decisão de transformar a própria vida ganhou força depois de um susto. Em 2019, Cido passou por uma cirurgia para retirada da vesícula e, durante o procedimento, os médicos descobriram uma artéria dilatada. Ele precisou ser submetido também a uma cirurgia cardíaca. Apesar da recuperação, percebeu que precisava mudar os hábitos.
No início do ano passado, resolveu cuidar da saúde. Mudou a alimentação, começou a caminhar diariamente e perdeu 28 quilos, passando de 103 kg para 75 kg. Hoje, além das caminhadas, corre regularmente e chega a percorrer até 10 quilômetros. O arroz ficou restrito a uma vez por semana e as frutas passaram a substituir o jantar. A mudança também inspirou a esposa, que emagreceu 15 quilos.
Vestibular quase 40 anos depois
Quase quatro décadas após concluir o ensino médio na rede pública, José Aparecido voltou a estudar para enfrentar um dos vestibulares mais concorridos do país. Ex-aluno da Escola Estadual Zulenka Rapchan, em Costa Machado, ele fez a preparação praticamente sozinho, revisando os conteúdos por conta própria.
Segundo ele, a prova foi difícil, mas a confiança nunca faltou. Agora, para se dedicar integralmente ao curso, pretende deixar o emprego no posto de combustíveis. Inicialmente, vai custear os estudos com o dinheiro obtido pela venda de suas cotas no estabelecimento e, se necessário, também poderá vender algum imóvel.
Ao mesmo tempo, pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em dezembro para tentar conseguir apoio financeiro por meio de programas como Sisu, Prouni ou Fies.
Recepção emocionante
A chegada do novo aluno chamou a atenção da comunidade acadêmica. Durante a recepção da 63ª turma da Famepp, Cido foi recebido com abraços dos colegas, da coordenadora do curso, Dra. Nilva Galli, e do diretor-presidente da mantenedora da Unoeste, Dr. Augusto César de Oliveira Lima.
A universidade oferece o curso de Medicina em Presidente Prudente, Jaú e Guarujá e possui nota máxima na avaliação do Ministério da Educação (MEC).
Fonte: Correio 24 horas



