Conhecido como Yowjab, recife fica exposto na maré baixa, abre canais e piscinas e faz a água escorrer em cascatas pelas bordas
Do barco,a primeira vista é que se parece uma faixa tranquila do oceano Índico. Não há parede de coral, cachoeira nem sinal claro do fenômeno. Poucos minutos depois, a água começa a baixar e uma enorme plataforma escura toma conta da paisagem local.
O espetáculo acontece no recife de Montgomery, conhecido como Yowjab pelos povos indígenas da região de Kimberley, no extremo oeste da Austrália. Durante a maré baixa, partes do recife ficam até oito metros acima da superfície e permanecem expostas por cerca de duas a três horas.
A impressão é de que o fundo do mar está subindo. O movimento, porém, é outro: o recife fica parado enquanto a maré recua depressa. A água acumulada no topo escorre pelas laterais e abre dezenas de quedas-d’água em pleno oceano.
Um gigante escondido
Com aproximadamente 400 quilômetros quadrados, Yowjab é considerado o maior recife costeiro da Austrália. Boa parte dessa estrutura desaparece sob a água assim que a maré volta a subir.
Também não se trata de um recife formado apenas por corais. Sua base reúne dolomita e arenito com cerca de 1,8 bilhão de anos. Por cima dela, algas coralinas criaram pequenas cristas capazes de reter a água quando o nível do mar desce.
É esse desenho natural que transforma o topo em um labirinto de canais, lagoas rasas e piscinas. Vista de uma embarcação, a água parece correr para fora do recife, como se o oceano tivesse aberto uma série de comportas.
Vida presa nas piscinas
A mudança repentina da maré altera a rotina de toda a fauna. Peixes, tartarugas-verdes e animais menores permanecem por algum tempo nas piscinas formadas sobre a plataforma. Tubarões-de-pontas-negras, dugongos e golfinhos procuram canais mais fundos até que a água retorne.
Aves marinhas aproveitam o intervalo para caçar nas áreas descobertas. Crocodilos-de-estuário também vivem na região. Embora a exposição ao sol seja intensa e a temperatura varie bastante, muitas espécies locais desenvolveram resistência ao calor e a períodos fora d’água.
O recife, portanto, não fica vazio quando aparece. Durante poucas horas, ele revela uma vida que continua escondida no restante do dia.
Viagem depende da maré
Yowjab fica a cerca de 20 quilômetros do continente, em uma das áreas mais isoladas da costa australiana. A maior parte dos visitantes chega em cruzeiros de vários dias pela região de Kimberley. Outra possibilidade são os voos panorâmicos que partem de Broome e Derby.
As viagens marítimas costumam ocorrer entre março e novembro, com maior procura no período seco, sobretudo de junho a agosto. Ainda assim, o horário da maré decide tudo. Chegar cedo ou passar o dia por perto não garante a cena: é preciso alcançar o canal justamente quando a água começa a recuar.
Cultura e turismo
Para o povo Dambeemangaddee, Yowjab não é apenas uma atração natural. O recife ocupa um lugar importante nas histórias de criação, no passado e na relação dessas comunidades com o mar.
A área integra parques marinhos administrados em conjunto pelo governo da Austrália Ocidental e pelos povos tradicionais. Guardas indígenas acompanham a biodiversidade, observam sinais de poluição e ajudam a proteger locais de valor cultural.
Uma lenda repetida na região fala ainda dos Yawijibaya, antigos moradores das ilhas próximas descritos como gigantes que teriam desaparecido. A arqueóloga Sue O’Connor contesta essa versão. Segundo ela, a fama pode ter surgido porque os habitantes costeiros eram altos e fortes, favorecidos por uma dieta rica em frutos do mar. Registros indicam que o grupo se integrou aos povos do continente no começo do século 20.
Três horas depois, o caminho se fecha. As piscinas somem, as cachoeiras perdem força e a plataforma volta a ser coberta pelo oceano novamente. De longe, Yowjab parece desaparecer novamente. O recife continua no mesmo lugar, esperando a próxima maré baixa para se mostrar.
Fonte: Correio 24 horas



